sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Convidado deste mês: Camilo Castelo Branco

------------------------------------------------ Camilo visto por Aquilino Ribeiro: -----------
" ..............Uma vez em Seide, foi o protagonista de três ou quatro grandes acontecimentos que interessa memorar: o primeiro, o seu improbo trabalho, o qual, graças à estabilidade de vinte e tal anos, frutificou na obra mais vasta que jamais escritor português construiu ou construirá. Vastidão com beleza; vastidão perdurável em despeito das pechas de escola, das deficiências de formação, do próprio meio tacanho e rebarbativo à finura mental. Certos livros seus merecem colocá-lo, apesar de todos os senões, na galeria dos grandes mestres universais. O segundo acontecimento foi o seu martírio físico e familiar, tabético, eczemático, cego, com a monstruosidade da sua degenerescência à banda, calda túrbida em que temperou a pena para o azedume e o sarcasmo. A via sacra que trilhou não podia estar mais escalavrada.
Terceiro acontecimento de truz foi a sua nobilitação. Sonhava com ela desde que era gente. Ah, não ser fidalgo! Não possuir quartéis heráldicos!
E fabulou uma árvore genealógica, ganhando ao seu plano tais e tais linhagistas benévolos ou sempre prontos a estas inocentes tranquibérnias, intrujando-se a si próprio e aos seus. Que descendesse de Fruela ou de Barrabrás, expirou visconde, feito pelo ungido do Senhor, el-rei, D. Luís I. Com a nobilitação veio a realeza. Curta realeza. Todavia os ministros, no limite acanhado do Terreiro do Paço, moviam-se a uma vontade sua.
A história deste brasonamento daria lugar a um romance colorido e variado de sardonismo, para emparelhar com o Eusébio Macário, até agora único. Tinha forjado um slogan de trapaça: era por causa dos filhos que mendigava o título, não por vaidade.
Outro sucesso notável foi o seu matrimónio. Tinha de ser depois do aburguesamento.Devia-o ao rei, a Tomás Ribeiro, às cinzas de Alves Martins. Com ele não se fala em obrigação moral e justa recompensa dos sacrifícios de Ana Plácido. Desde esse dia foi mais circunspecto em matéria política. Nunca passou aliás de corifeu efémero dum partido, tão oscilante em doutrina social como em matéria religiosa. Todavia, se se pesasse em balança o que disse a favor da ideia de Deus e da Igreja e o que disse em contra, os pratos não demorariam um só instante em equilíbrio. O Diabo e o Anticristo levavam superabundantemente a melhor.
Afinal, o dístico que veio a aplicar-se a Camilo, génio da desgraça,assenta-lhe como uma luva. Com efeito, uma das facetas que mais brilham na sua obra de romancista é a da infelicidade humana sob forma de canceração. Dir-se-ia que as suas personagens, quando tocadas pela luz do mau sestro, se levantam esclarecidas por uma estranha luz de Sinai, tão dolorosas que nem esculpidas em carne. Já os seus felizardos da sorte são tíbios e moles. Para serem grandes é necessário que sejam burlescos. O bordão do seu sestro é trágico. Tal dom não é casualidade, mas regra. Sempre as figuras inditosas do seu teatro revestem um acume de real que salta por cima do convencionalismo e postiços menos escandalosos da escola romântica. São assim muitos dos figurantes das Novelas do Minho, do Sangue, da Mulher Fatal, do Amor de Perdição,etc, etc. Nem um estatuário que os houvesse moldado em bronze.
Afinal era a sua alma supliciada que tudo ia interpretando, transpostos os planos, pois que outra coisa podia ser para quem teve tão restritivo trânsito? A pintar uma face crispada pelo ricto do desespero ou a traduzir em meia dúzia de palavras de reflexão uma cena de angústia, não há segundo. A massa de sofrimento nas suas mãos torna-se a mais maleável das gredas. E todo o seu mundo dorido e insatisfeito, quer gema, chore, ameace, odeie, assassine, apaixona-nos e obriga-nos a comungar-lhe o transe, quando não é a esposar-lhe a causa.
Seria impossível que Camilo respirasse apenas a atmosfera salitrosa de inferno de que se aureolam os coribantes do seu guinhol. Algumas vezes,
não poucas, deixa o orco peculiar e entra com segura afoiteza os umbrais do paraíso. Mas que paraíso é este e que espécie de habitantes edénicos! Tudo resulta pálido ou cor de rosa, mormente se fizermos a sua comparação com as águas fortes de que é consumado mestre. Será assim porque é esse o aspecto menos comum do mundo? Talvez. A vida tem por essência a dor. A vida, no que encerra de eterno, decorre em crise e luta. Camilo possuía pois, em último grau, o génio da desgraça quanto à capacidade de dominar e traduzir o trágico que há no infortúnio, no pranto desfeito ou mesmo na adversidade. Ninguém até a data o superou em Portugal e é raro que o tenha sido as literaturas estrangeiras.
Se aquelas duas palavras são como que o mote de grande parte da sua arte, poderá também dar-se-lhe segundo sentido, reportando-as ao que chamam má sina com reveses, adversidades, incapacidade para o arranjismo. Não há dúvida que tendo em conta os passos capitais da sua existência, poderemos reconstruir uma via bem canhestra. As letras foram mesmo assim a tábua de salvação do náufrago. A par e passo que exercia a função, a vida ia-se-lhe desdobrando ingrata e tormentosa. Bem verdade que foi preciso este seu fadário para criar entre nós oficina própria. Até Camilo, a literatura era uma prenda pouco mais do que sala. Ora é precisamente com as circunstâncias que se vão desenrolando nesta como que sua subida ao calvário que é costume ilustrar a legenda de mau fado que parecia persegui-lo desde o berço.
Decerto que está fora de qualquer probabilidade científica admitir que se possa nascer debaixo de mau agouro astral ou exercer dano a distância mercê de acto de vontade ou de endrómina mágica. À escala romântica utilizava-se muito destes narizes de cera herdados dos romanos e dos feiticeiros dos tempos bárbaros. A literatura hoje pôs de parte tão ensebados cordelinhos.
Ora o grande Camilo foi daqueles em quem se concatenaram todos os concursos funestos para se lhe poder chamar um infeliz. Excepto o génio com que deu expressão à alma atormentada, e é um dos lances áureos do povo português, e que, ultrapassando, por isso mesmo, o destino individual, está fora de causa, tudo nele foi sinistro, astroso, aziago, miserando. O suicídio foi como que o selo que referendou existência assim calamitosa.""
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In BOLETIM CULTURAL, " Camilo, o Homem e o Artista "- Fundação Caloute Gulbenkian. - VII Série, Outubro de 1991.
Camilo visto por:

- Teixeira de Pascoais, O Penitente, Assírio & Alvim, 1985 - Aquilino Ribeiro, O Romance de Camilo, Editorial Gleba, 1957 -Vitorino Nemésio, de " Camilo", In Ondas Médias, Ed. Bertrand, s.d. ( 1945 - José Régio, de " Camilo, romancista português", in Ensaios de interpretação crítica, Portugália, Editora, 1964. --------------------------------------- Escolhi o depoimento de Aquilino Ribeiro. Se por acaso algum leitor mostrar desejo de ler o depoimento dos outros escritores, não me importo de postar nesse sentido. Com gosto. --------------------------------------------- Eduardo Aleixo

7 comentários:

Paula Raposo disse...

Obrigada pela partilha!
Beijos.

Manu disse...

Poeta Eduardo!

Nas letras deste nosso país
muitos ficaram aquém fronteira
ser universal? É como quem diz!
Apenas nossa, uma obra inteira

E Camilo deixou uma obra que não é inferior, em nada, ao que existe lá fora. Bom fim de semana. Abraço.

gaivota disse...

boa postagem eduardo, tanto camilo como aquilino, dois senhores das letras do nosso país, às vezes pouco considerados na nossa cultura!
bom fim de semana
beijinhos

Lucília Benvinda disse...

Edu,

Fiquei maravilhada com a 'crítica' de Aquilino Ribeiro. É sempre bom sabermos da opinião dos outros para aferirmos a nossa.

Bota aí todas as outras escritas literárias acerca do nosso mestre da literatura, que foi sem dúvida um dos maiores génios nessa arte - pelos vistos na do sofrimento, também.

Não me canso de ler Camilo. Já vou nas Estrelas Propícias, depois da Brasileira de Prazins, das Novelas do Minho e tantos outras obras que venho a ler de seguida já alguns meses. Uma obra por m~es, é o que nos é proposto nos encontros de Noites de Insónias - na Casa de Camilo em S. Miguel de Seide. No próximo dia 11 lá estaremos para 'quase diria' saltar a fogueira com Camilo.

Meu adorado Camilo, como gosto de ouvir falar de ti!!! (Será que noutra vida fui alguma das muitas apaixonadas tuas? lol) - que estranha forma de vida!

Ai, saio suspirando...

Aqui ao anfitrião, deixo o meu mais sincero agradecimento por se lembrar aqui do meu conterrâneo. Não se esqueça de 'botar' mais.

C'est moi,

Lulu

Graça Pires disse...

Não sou muito camiliana, Mas adorei o texto do Aquilino, autor que muito aprecio e que dá gosto ler sempre.
Um abraço

Lucília Benvinda disse...

Curiosidade:

"Aquilino Ribeiro em Paris - 1928/1929
O seu casamento com minha tia e madrinha Gigi (Gerónima Rosa) realizou-se no dia 27 de Junho de 1929


Fotografias do dia do casamento"

No Blogue de Manuel Sá-Marques, neto de Bernardino Machado e sobrinho de Aquilino Ribeiro: http://manuel-bernardinomachado.blogspot.com/

Maria P. disse...

Um convidado de luxo! :)

Beijinho*